O silêncio e o atalho
08/2025
Todos os anos, sem perceber, atravessamos o dia exato da nossa morte. Ele está ali, escondido no calendário, um número como qualquer outro, mas que guarda o fardo da sentença. Passamos por ele distraídos, tomando café, abrindo a janela, resmungando diante do barulho de pedreiros. E seguimos vivos. Talvez até tenhamos sorrido nesse dia, sem imaginar que um ano futuro, naquela mesma data, o sorriso não se repetirá.
Se soubéssemos, se o relógio nos revelasse o "maldito" segredo, que faria cada um de nós? Gastaríamos tudo em gestos desesperados, tentando sugar em meses a seiva de uma vida inteira? Ou plantaríamos tamareiras, sabendo que jamais provaríamos dos frutos, confiando que alguém colheria no nosso lugar?
Meu pai morreu no dia do garimpeiro. Como se o ofício lhe tivesse marcado o corpo e o tempo. Um ano antes, no mesmo dia, ele ainda respirava. E eu me pergunto: o que fez naquele intervalo de 365 dias? Que contas prestou ao silêncio? Que dívidas manteve abertas?
Talvez, se soubesse a data, tivesse entrado em pânico. Ou talvez não. Talvez tivesse apenas seguido em frente, como tantos seguem, tentando negociar com o invisível.
O silêncio de Deus
Mas não há negociação possível. O homem suplica. Ele se ajoelha. Ele grita nomes antigos, invocações de línguas mortas, promete sacrifícios, feitiços de fogo e de chama. E, ainda assim, o que lhe responde é o silêncio. Esse silêncio, que não é vazio, mas presença esmagadora. Um silêncio que pesa mais que mil trovões. Um silêncio que não se quebra, que não se deixa comover, que não dá sinais.
O silêncio de deus é a única certeza. Ele não responde, porque talvez nunca tenha falado. Ele não consola, porque talvez não saiba de nós. Ou, pior ainda: sabe, mas não se importa.
E diante desse silêncio, resta-nos viver como se houvesse sentido. Inventamos ritos, edificando igrejas, como se fosse possível abrandar a boca cerrada do vazio. Mas nada muda a data. Ela permanece. Gravada em pedra. Intocável. Silente.
O atalho dos desesperados
É nesse ponto que o suicídio surge como afronta. Para os monoteístas, ele é crime maior não porque destrói um corpo, mas porque se adianta ao relógio do demiurgo. É um gesto de insolência contra o cronograma invisível.
O suicida não aceita o silêncio. Ele decide falar por deus, dizer a palavra que o céu cala. Ele abrevia a espera, recusa o teatro da esperança, desmonta a liturgia do adiamento. Ele age.
Talvez por isso as religiões o condenem com tanto fervor: porque ele rasga o véu do mistério. Porque mostra que o fim não precisa ser aguardado, pode ser fabricado hoje e agora. Porque transforma o sagrado em uma escolha banal, um salto, uma lâmina, um frasco.
O suicídio é o eco invertido do silêncio de Deus: se o céu cala, o homem berra o fim com o próprio corpo.
O que sobra
E, ainda assim, todos nós atravessamos, ano após ano, a data secreta. Todos os anos morremos um pouco sem notar. A contabilidade da vida não está na sentença final, mas no que se fez no intervalo. No abraço verdadeiro que foi dado, na palavra que foi negada, na árvore que foi plantada sem testemunha.
No fim, o silêncio vencerá. Ele nos envolve desde já, como um manto que fingimos não ver. Mas até que chegue o dia marcado, ou até que alguém resolva adiantar o relógio com um gesto radical, resta-nos esse intervalo de 365 dias, sempre renovado.
Um intervalo em que o silêncio de deus se mistura ao rumor humano. Um intervalo em que podemos plantar tamareiras, mesmo sem a promessa de colheita.

